Após 108 dias, médico vence a Covid-19 e tem alta na região

Antônio Gubolino é cardiologista hemodinamicista e atua no Hospital Austa e no Instituto do Coração (Incor) de Rio Preto. Cateterismos e angioplastias fazem parte de sua rotina. De quem diariamente cuida dos outros, ele precisou ser intensamente cuidado por 108 dias, tempo em que permaneceu internado por causa da Covid até esta quinta-feira, dia 22. Foi um baque para a família passar a tomar as decisões por ele. Se a recuperação de um paciente traz satisfação, a família pôde ver como é estar do lado de lá: além de perceber como é importante ter equipes empáticas e humanizadas, aprendeu a comemorar cada pequena vitória – desde levantar o dedo, falar, prestar atenção, cada passo que Gubolino reaprendeu a dar.

A sensação de voltar à vida é de renascimento, vitória fruto do empenho das equipes do Austa Hospital, em Rio Preto, e do Hospital Albert Einstein, em São Paulo, e também da esperança inabalável da esposa e dos filhos e das orações de familiares e amigos.

 

Os primeiros sintomas de Gubolino apareceram em 5 de janeiro. Toda a família ficou doente, e a esposa, Sandra, também chegou a ficar internada no Austa, mas somente o quadro dele se complicou mais. No dia 12 de janeiro, foi preciso intubá-lo. Alguns dias depois, ocorreu a transferência para São Paulo, antevendo complicações, que de fato ocorreram – o médico precisou de 33 bolsas de sangue por causa de uma hemorragia. Além da Covid, estava com um outro vírus respiratório, normalmente inofensivo, mas que ataca quando a imunidade está baixa.

“Os pacientes com Covid-19, em sua grande maioria, têm boa evolução e não necessitam internação. Cerca de 10% dos casos são sintomáticos e necessitam ser monitorados e 5% desenvolvem quadros mais graves, com necessidade de internação. Infelizmente, o doutor Gubolino foi um dos pacientes que evoluiu com quadro grave, ou melhor, gravíssimo”, diz Paulo Nogueira, colega do médico e cardiologista intensivista.

“A sensação de vê-lo recebendo alta hospitalar é a de ver um irmão se recuperar de uma doença muito grave”, pontua Nogueira. “Trata-se de um período de muita angústia e dor, associado a muitas incertezas sobre a evolução, além da impossibilidade de contato com o paciente que vive a sua doença isolado dos amigos e familiares. É um período muito triste e muito dolorido.”

Gubolino oscilou entre a estabilidade e a chance de partir várias vezes. Ele e a família ressaltam a importância que teve o ECMO, aparelho que faz a circulação extracorpórea, oxigenando o sangue quando o pulmão não está conseguindo. Foram 24 dias de uso da tecnologia. “Foi importantíssimo ter esse equipamento que o manteve vivo, respirando por 24 dias enquanto o pulmão descansava”, diz a esposa, Sandra Isabel Franzotti Gubolino, de 56 anos.

Ela descreve o período de mais de três meses como desesperador. “A Covid te separa das pessoas. É a primeira coisa que acontece, você só recebe ligações. Isso no início foi muito difícil, enquanto ele estava no momento mais grave a gente não conseguia vê-lo, só uma vez por semana, por meia horinha.” Quando o marido foi para a UTI regular, pois o período de infecção da Covid já havia terminado, foi possível passar mais tempo com ele.

No dia 14 de março, o cardiologista foi extubado. “Nesse período (de intubação) eu fiquei fora da tomada e me religaram”, brinca. “Perdi mais de 20 quilos de massa magra. Eu tinha 78 quilos, fazia atividade física bem intensa, agora peso 61 quilos e meio e estou entrando em um processo de reabilitação”, conta. Serão duas semanas em São Paulo e depois Gubolino dará continuidade ao tratamento em Rio Preto para recuperar as condições físicas – a força motora de um dos braços, por exemplo.

Ele diz que sua condição ficou crítica em vários momentos, a ponto de pensarem que não sairia vivo do hospital, inclusive com a família esperando uma ligação com notícias muito ruins. Conta que a esposa e os filhos, a advogada Isabela e o estudante de medicina Pedro, sempre pediam à equipe médica que não desistissem dele. Enquanto isso, do lado de fora, as orações eram feitas. “Nunca vi uma pessoa ser tão querida e estar em tantos grupos de orações. É uma coisa inexplicável, e graças a Deus ontem (quinta) ele teve a bênção de ter saído”, diz o cunhado, José Luiz Franzotti.

Para Gubolino, a sensação de sair do hospital é de renascimento e de reviver, e ele pretende aproveitar o novo tempo com família e amigos. “Deus me deu essa segunda oportunidade. Segundo minha família, as orações fizeram a diferença e eu passei a intensificar minha fé, acho que tinha me distanciado um pouco de Deus. Daqui para frente passa todo um filme de reflexão, o que aconteceu”, diz. “Eu trabalhava com intensidade, sou muito voltado para o trabalho, por ser médico. Não vou deixar de ter dedicação, mas preciso voltar um pouco para minha relação com amigos, amor pela família. Quero estar mais próximo das pessoas que precisam de mim. Em termos de amizade, de ajuda ao próximo, de compaixão.”

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