Times campeões, principalmente em torneios eliminatórios, são forjados em jogos como este que vimos em Houston, entre Brasil e Japão. O roteiro dramático da classificação, com uma virada aos 50 minutos do segundo tempo pelos pés de um herói improvável, cria uma casca que ainda faltava à Seleção.
Em um ciclo de Copa marcado por trocas de comando e turbulência, o Brasil teve raras vitórias que lhe entregassem confiança. Quando prometeu "porrada neles", levou quatro de sua maior rival. Deixou a Copa América logo no início do mata-mata, com campanha medíocre. Perdeu clássicos, tropeçou em amistosos mais difíceis e, repleto de desfalques, ainda iniciou o Mundial com um empate que só fez por aumentar o ceticismo.
Por essas e outras a vitória da última segunda-feira pode representar um marco para a Seleção. A vaga nas oitavas de final veio na base da raça, algo tantas vezes cobrado pelo torcedor, mas não só isso. Ajustes táticos após o intervalo foram fundamentais para melhorar a equipe e furar o bloqueio defensivo japonês.
Com a escalação mantida pela primeira vez por Carlo Ancelotti, o Brasil começou bem a partida, assumindo o protagonismo desde o início. Porém, como esperado, o Japão mostrou organização tática e se fechou com duas linhas de marcação compactas, uma com cinco e outra com quatro jogadores, num 5-4-1.

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Para tentar achar espaços, a Seleção trocava passes e alargava o campo com dois atletas posicionados quase nas linhas laterais: pela direita Rayan e pela esquerda Douglas Santos. Ao atacante faltava um pouco mais de ousadia para arriscar dribles e jogadas individuais. Ao lateral, oportunidade. Mesmo quando estava livre de marcação, Douglas não era acionado pelos companheiros.
As estatísticas mostravam o Brasil com a bola em quase 70% do tempo, mas essa posse foi ficando cada vez mais improdutiva.
O que já não era bom ficou ainda pior depois da pausa para hidratação. Danilo errou um passe no meio de campo e Casemiro, que estava amarelado desde os 14 minutos, nem desarmou nem fez a falta. Num lance extremamente rápido, Gabriel Magalhães preferiu correr para trás em vez tirar o espaço de Sano, que acertou ótimo chute, no cantinho. Alisson se esticou, mas não alcançou. Parecia um déjà vu dos gols de Bélgica e Croácia nas últimas eliminações brasileiras em Copa.

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Em desvantagem no placar, a Seleção ficou atordoada. Passou a cometer erros bobos e a cruzar bolas na área a partir da intermediária, o que não gerava perigo. Vini Jr e Matheus Cunha, dois dos melhores até então na Copa, participavam pouco da partida.
Lucas Paquetá se machucou minutos antes do intervalo e gerou um dilema para Ancelotti. Apostar em Neymar em um jogo tão intenso não parecia ser a melhor alternativa. Danilo Santos poderia oferecer mais infiltração e dinamismo, mas não tanto controle e criatividade. Ancelotti preferiu preencher mais a área e optou por Endrick.
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Carlo Ancelotti conversa com Endrick antes de colocá-lo em campo em Brasil x Japão — Foto: Michael Regan - FIFA/FIFA via Getty Images
A mudança não foi apenas de jogadores, mas também tática. Em vez de Douglas Santos, quem passou a dar amplitude pelo lado esquerdo foi Vini Jr. Pela direita, Danilo ganhou mais liberdade para apoiar e Rayan ficou um pouco mais aberto. A área japonesa ficou mais preenchida.
Após duas ótimas chances aos seis e aos oito minutos, o Brasil finalmente empatou aos nove, com Casemiro calando aqueles que defendiam a saída dele no intervalo - inclusive o autor deste texto.
Minutos depois, aos 20, Ancelotti tomou outra decisão questionável num primeiro momento, mas que se mostrou certeira depois. Ele colocou Martinelli no lugar de Matheus Cunha e, diferentemente do que se poderia imaginar, usou o jogador do Arsenal por dentro, mantendo Vini aberto na ponta, mais distante do gol.
Rayan cresceu, Danilo melhorou, Casemiro passou a errar menos. Vini foi importante para confundir e abrir a defesa rival, embora não tenha sido tão brilhante quanto nos três primeiros jogos do Mundial.
Na parte final do jogo, a Seleção passou a ter ainda mais volume e encurralou o Japão, que sofria com a pressão na saída de bola. Foram mais de 700 passes trocados e 20 finalizações do Brasil - a última delas de Martinelli, no minuto 95, completando assistência de Bruno Guimarães, que desponta como um dos melhores jogadores da Copa até aqui.
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Jogadores do Brasil comemoram classificação às oitavas da Copa — Foto: Reuters
Este Brasil ainda tem dificuldades quando tem pouco espaço para jogar às costas da defesa adversária, como foi contra o Japão. Vai melhor nas transições rápidas do que nesse jogo de paciência para furar retrancas. Mesmo assim, segue crescendo e criando casca. Faltam quatro jogos para o sonho do hexa.
