De uma instituição endividada à modernização: os 11 anos de José Biscassi à frente da Santa Casa

De uma instituição endividada à modernização: os 11 anos de José Biscassi à frente da Santa Casa

Quando José Biscassi assumiu a provedoria da Santa Casa de Misericórdia de Santa Fé do Sul, em 2015, encontrou pela frente um dos maiores desafios de sua trajetória: administrar o único hospital do município em um período marcado por dificuldades financeiras, déficit mensal e necessidade de investimentos em praticamente todas as áreas.

Onze anos depois, a realidade da instituição apresenta um cenário diferente. Entre dificuldades que nunca deixaram de fazer parte da rotina de um hospital filantrópico, a Santa Casa ampliou sua estrutura, modernizou setores, recebeu novos equipamentos, implantou serviços e fortaleceu sua atuação como referência para Santa Fé do Sul e municípios da região.

A trajetória pode ser acompanhada pelas próprias notícias publicadas pelo Informa Mais desde os primeiros meses da gestão.

O início de uma missão em 2015

Conhecido por sua participação em ações beneficentes e iniciativas comunitárias, José Biscassi chegou à provedoria em 2015, sucedendo Natalino Franco.

O tamanho do desafio ficou evidente logo nos primeiros meses.

Cerca de 60 dias depois de assumir, a nova provedoria tornou público um balanço financeiro que mostrava receitas fixas pouco superiores a R$ 1 milhão diante de despesas próximas de R$ 1,19 milhão. O resultado era um déficit de aproximadamente R$ 180 mil.

Não se tratava apenas de equilibrar números.

Era necessário manter médicos e funcionários, garantir medicamentos e insumos, conservar equipamentos, realizar reformas e assegurar o funcionamento de uma instituição que atende, principalmente, pacientes do Sistema Único de Saúde.

Nos anos seguintes, a situação financeira continuou exigindo atenção.

Em 2017, mesmo depois de a Santa Casa receber aproximadamente R$ 1,7 milhão em emendas parlamentares e arrecadar cerca de R$ 665 mil com promoções, o hospital ainda apresentava déficit mensal superior a R$ 250 mil e uma dívida acumulada próxima de R$ 6,6 milhões.

Era necessário buscar alternativas.

A estratégia das parcerias

Foi justamente nesse cenário que uma característica começou a marcar a administração de Biscassi: a busca permanente por parceiros.

Prefeituras, vereadores, deputados estaduais e federais, empresários, entidades, voluntários e a própria população passaram a integrar uma grande rede de apoio ao hospital.

Emendas parlamentares se somaram às tradicionais campanhas beneficentes. Leilões, quermesses, rifas e outras promoções ajudaram a complementar as receitas.

A comunidade também passou a participar diretamente de melhorias na estrutura, inclusive com reformas de quartos e doações de equipamentos.

A estratégia permitiu que, mesmo convivendo com as dificuldades históricas do setor filantrópico, a instituição começasse gradativamente a avançar.

Em 2018, quando Biscassi foi reconduzido ao cargo, a Santa Casa possuía 79 leitos, sete deles destinados à UTI, aproximadamente 189 colaboradores e cerca de 45 médicos.

Naquele momento, as despesas anuais projetadas estavam próximas de R$ 16 milhões, enquanto a receita estimada era de aproximadamente R$ 13 milhões.

O equilíbrio financeiro permanecia como um dos principais desafios.

A pandemia e o maior teste

Se administrar um hospital filantrópico já exigia atenção permanente, a partir de 2020 a Santa Casa enfrentaria uma situação que ninguém poderia prever.

A pandemia da Covid-19 transformou completamente a rotina hospitalar.

Foi necessário reorganizar espaços, criar fluxos específicos, disponibilizar leitos de enfermaria e UTI e trabalhar em conjunto com os municípios para atender pacientes em um dos períodos mais críticos da saúde pública mundial.

Recursos extraordinários foram conquistados para auxiliar no enfrentamento da pandemia. Em julho de 2020, por exemplo, mais de R$ 500 mil foram destinados diretamente à instituição para as ações contra a Covid-19.

Somente em 2022, diante da redução dos casos graves, internações e solicitações de vagas, a Santa Casa pôde desativar os leitos exclusivos de UTI e enfermaria destinados à doença, mantendo 10 leitos na estrutura de isolamento para eventuais necessidades.

Superada a fase mais crítica, começava um novo ciclo.

Da manutenção à modernização

Os anos seguintes passaram a registrar investimentos cada vez mais direcionados à modernização do hospital.

Em 2023, uma das principais entregas foi a reforma e ampliação da ala de emergência.

Somente no Pronto Atendimento foram investidos aproximadamente R$ 498 mil dentro de um aporte maior destinado à instituição. Recepção, consultórios, salas de espera e outros ambientes passaram por melhorias.

Ao mesmo tempo, empresários e voluntários continuaram contribuindo. Quartos destinados aos pacientes do SUS foram revitalizados por meio de campanhas e doações da própria comunidade.

A transformação também chegou à tecnologia.

O Centro de Diagnóstico por Imagem ganhou novos equipamentos e estrutura, permitindo ampliar a capacidade de realização de exames e oferecer maior suporte aos médicos.

Um novo Centro Cirúrgico

Outro marco ocorreu em fevereiro de 2025.

A Santa Casa entregou a modernização de seu Centro Cirúrgico, resultado de investimento aproximado de R$ 1,2 milhão.

As melhorias proporcionaram uma estrutura mais moderna para realização dos procedimentos e melhores condições de trabalho aos profissionais.

No mesmo período, outro antigo projeto saiu do papel.

Em março de 2025, foi inaugurado o Laboratório de Análises Clínicas da própria Santa Casa, estruturado com investimento de aproximadamente R$ 600 mil.

O serviço passou a atender pacientes do SUS, convênios e particulares e permitiu maior integração dos exames laboratoriais com a rotina hospitalar.

Um ano depois, em 2026, o laboratório já fazia parte da nova realidade da instituição.

Novos serviços e equipamentos

A modernização não ficou restrita às obras.

Novos equipamentos foram incorporados e especialidades passaram a contar com tecnologias antes inexistentes na estrutura local.

Na Urologia, por exemplo, a Santa Casa passou a disponibilizar equipamento a laser para procedimentos relacionados ao tratamento de cálculos renais, evitando a necessidade de deslocamento de determinados equipamentos de centros maiores.

A parceria entre Santa Casa, Prefeitura, Unifunec e Consagra também permitiu ampliar serviços.

Entre os avanços mais recentes está o fortalecimento do atendimento de Ginecologia e Obstetrícia, ampliando a assistência às gestantes de Santa Fé do Sul e da microrregião.

A presença do curso de Medicina do Unifunec também estabeleceu uma nova relação entre o hospital e o ensino superior, aproximando a assistência hospitalar da formação dos futuros médicos.

A mudança também aparece nos números

Um dos dados que melhor demonstra a diferença entre os primeiros anos da gestão e o cenário atual foi apresentado pela própria provedoria.

Em balanço referente a 2025, a Santa Casa informou ter recebido mais de R$ 5,1 milhões em emendas parlamentares somente naquele ano.

Na oportunidade, Biscassi destacou outro ponto: segundo o provedor, desde que assumiu, em 2015, a instituição não contraiu novas dívidas, permanecendo o pagamento de compromissos originados anteriormente.

A afirmação ganha relevância quando comparada aos números registrados no início da administração, quando déficits mensais e uma dívida milionária colocavam pressão permanente sobre as contas do hospital.

Isso não significa que os desafios financeiros tenham desaparecido. Como instituição filantrópica e com grande volume de atendimentos pelo SUS, a Santa Casa continua dependendo da articulação entre receitas públicas, emendas parlamentares, convênios, municípios e participação comunitária.

Mas a estrutura encontrada em 2015 já não é a mesma de 2026.

60 anos de Santa Casa e 11 anos de uma gestão

Em fevereiro de 2026, a Santa Casa completou 60 anos de história.

A solenidade realizada na Câmara Municipal também serviu para olhar para a trajetória mais recente da instituição.

Na ocasião, os 11 anos de José Biscassi na provedoria foram lembrados juntamente com os investimentos realizados na estrutura física, equipamentos, organização administrativa e serviços oferecidos à população.

A longevidade na função transformou Biscassi em um dos personagens centrais da história recente do hospital.

Durante esse período, diferentes governos municipais passaram pela Prefeitura, mandatos parlamentares começaram e terminaram e novos desafios surgiram na saúde pública. A estratégia da provedoria, entretanto, permaneceu baseada na construção de parcerias.

Uma história construída por muitas mãos

Embora José Biscassi esteja à frente da instituição há mais de uma década, a transformação da Santa Casa não pode ser contada como uma realização individual.

A história envolve médicos, enfermeiros, funcionários, diretores, integrantes da provedoria, voluntários, empresários, entidades, prefeitos e vereadores dos municípios atendidos, além de deputados estaduais e federais que destinaram recursos ao hospital.

E envolve, sobretudo, a comunidade.

A participação popular continuou presente durante toda a trajetória. Campanhas beneficentes, doações e iniciativas voluntárias ajudaram a reformar quartos, adquirir equipamentos e manter projetos.

Em março de 2026, por exemplo, mais um quarto foi completamente revitalizado por meio da mobilização de moradores e colaboradores de Santa Clara d'Oeste, com aproximadamente R$ 20 mil em doações.

São ações que ajudam a explicar como uma instituição filantrópica consegue continuar funcionando diante de custos cada vez maiores.

Onze anos depois

O balanço entre 2015 e 2026 mostra duas fotografias distintas.

Na primeira, uma nova provedoria apresentava à população um hospital convivendo com déficit mensal, dívida acumulada e necessidade urgente de recursos.

Na segunda, onze anos depois, aparece uma Santa Casa com Centro Cirúrgico modernizado, laboratório próprio, avanços no diagnóstico por imagem, novos equipamentos, quartos revitalizados, ampliação de serviços e maior integração com a rede regional de saúde e o ensino médico.

Os problemas não terminaram — e provavelmente nunca terminarão para uma instituição filantrópica que atende milhares de pacientes pelo SUS.

O que mudou foi a capacidade de enfrentá-los.

Aos 60 anos de fundação, a Santa Casa de Misericórdia de Santa Fé do Sul mantém sua missão histórica de cuidar da população. E os últimos 11 anos passaram a ocupar um capítulo importante dessa trajetória: um período que começou sob o peso das dificuldades financeiras e avançou para uma fase de recuperação, investimentos, modernização e fortalecimento regional.

Para José Biscassi, que chegou à provedoria em 2015 diante do desafio de ajudar a reorganizar a instituição, completar 11 anos no cargo representa também acompanhar a transformação de um hospital que continua dependendo da união de muitas mãos para escrever os próximos capítulos de sua história.